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Não confundir com Stendhal. É mesmo Estendal, esse apuradíssimo instrumento de aferição civilizacional.
No princípio desta história também havia um estendal. Não era nada sofisticado como os que agora se vêem, cheios de cromados e articulações e outros mimos da modernidade. Era um pau comprido (desconfia-se que tivesse sido cabo de vassoura numa vida passada) atravessado a espaços por furos onde corriam cordas, amarradas em pregos retorcidos cravados nas extremidades da janela. Quando havia roupa estendida, erguia-se orgulhoso, perpendicular à parede, como a proa esguia de um navio.
A criança, sentada num pequeno banco, encostava o queixo ao parapeito e vivia aventuras maravilhosas que começavam, as mais das vezes, com aquele mastro de navio e as suas velas coloridas desfraldadas ao vento, feitas de aventais e peúgas, saiotes e blusas e demais peças. Por muito inopinadas que fossem, não apoucavam a demanda nem confinavam a imaginação, que o resto do navio cabia todo na sua cabeça, com as cordas, as tábuas corridas do convés, mais as gaivotas e os mares e os piratas e todas as sortes de monstros e gentes extraordinárias.